UM OLHAR PARA O INTERIOR !!!
DEUS E O DINHEIRO !
“Abrir mão de tudo” significa, na verdade, desvencilhar-se do que é
inútil ou prejudicial. Não se trata de renúncia, mas de libertação.
Felipe Dittrich Ferreira
Ao referir-se ao dinheiro, Cristo não deu
margem a ambiguidades. “Ninguém”, disse Ele, “pode servir a dois senhores. Pois
vai odiar um e amar o outro, ou se apegar a um e desprezar o outro. Não podeis
servir a Deus e ao dinheiro” (Lc 16,13). Essa declaração pode ser interpretada
em pelo menos dois sentidos.
O trecho acima parece indicar, em primeiro lugar,
que temos sempre um senhor. Mesmo sem perceber, acabamos por escolher um lado.
Por ação ou omissão, aderimos inevitavelmente a um projeto que nos transcende.
A liberdade, nesse contexto, pode ser considerada ilusória. Somos livres apenas
na medida em que escolhemos a qual senhor servir. O segundo sentido da
declaração acima destacada é o seguinte: Cristo refuta a possibilidade de
mantermos um pé em cada canoa. Na contramão do cálculo e da prudência,
exorta-nos a pôr todos os ovos na mesma cesta, com plena confiança numa única
aposta.
"Abrir mão de tudo”, nesse contexto,
significa, na verdade, desvencilhar-se do que é inútil ou prejudicial. Não se
trata de renúncia, mas de libertação. Daí que a cruz tenha no cristianismo um
sentido positivo. Por meio dela, provamos, muitas vezes de forma dolorosa,
nossa fidelidade; ao mesmo tempo, por ela sustentados, vislumbramos, despidos
de ilusões mundanas, a terra prometida. Não é difícil compreender o convite ao
desprendimento. Basta notar, conforme o ensinamento de São Francisco, que os
pássaros conseguem desprender-se do chão justamente porque nada carregam.
A diferença entre renunciar às coisas e
libertar-se delas, que separa duas formas de religiosidade, tende a revelar-se
de forma gradual. Falar em renúncia é falar em sacrifício: trata-se de algo que
fazemos por Deus, naturalmente de forma limitada e quase sempre com alguma
relutância. Libertação, ao contrário, é algo que Deus faz por nós. É uma graça
que recebemos: a graça de aprender a diferenciar o principal do secundário, o
trigo do joio, a vida da morte. Sobre isso falou com perfeita clareza a madre
carmelita Maria José, durante muitos anos priora do Convento de Santa Tereza,
no Rio de Janeiro: “a cruz é pesada no início do caminho; amada, ela torna-se
leve e fonte de paz interior”. Expressou-se de forma similar Iehudá Halevi,
sábio judeu do século 12, referindo-se a Deus:
“Seu serviço é liberdade e
humildade perante Ele é honra verdadeira”. Nessa perspectiva, passam a fazer
pleno sentido, não obstante Lc 9,58, as seguintes palavras de Cristo: “meu jugo
é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30). A cruz, em outras palavras, não pesa;
ela tira peso. Em favor da cruz, podemos evocar, portanto, o alerta de Isaías:
“ai dos que se amarram ao pecado com as cordas da ilusão e vão arrastando suas
culpas, como se puxassem uma carroça!” (Is 5,18).
A fim de aprofundarmos a reflexão em torno da
diferença entre o importante e o secundário, escutemos, ainda, as seguintes
palavras do profeta: “Oh! Todos que estais com sede, vinde buscar água! Quem
não tem dinheiro venha também! Comprar para comer, vinde, comprar sem dinheiro
vinho e mel, sem pagar! Para que gastar dinheiro com coisas que não alimentam?
Para que trabalhar tanto pelo que não mata a fome? Escutai, ouvi bem o que eu
digo e comereis o que há de melhor, o vosso paladar se deliciará com o que há
de mais saboroso. Atenção! Vinde procurar-me, ouvi-me e tereis vida nova” (Is
55, 1-3).
Esse trecho pode causar alguma perplexidade.
Acostumados a dar valor ao que tem preço, esquecemos, com frequência, que as
coisas mais importantes estão à nossa disposição gratuitamente. A luz do sol é
um exemplo. O ar que respiramos é outro. Também poder-se-ia mencionar a amizade
e o amor. Em tais coisas, Deus está presente. Diante delas, podemos dizer:
“provai e vede como o Senhor é bom” (Sl 34,8). O desafio, então, é permanecer
em Deus, evitando que a mercadoria ganhe prioridade sobre a dádiva, isto é, que
a lógica mercantil, calculista, prevaleça sobre a lógica da abundância e da
generosidade, por meio da qual Deus atua. Também nesse sentido, talvez
promissor no contexto de uma “teologia da história” ainda por fazer, pode-se
compreender a objeção cristã ao dinheiro.
Um abraço e até breve !
Scellmo Allbëresz

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